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Não existe devolução – Parte II

Parte II – Sobre o abandono

(Para ler a Parte I – Sobre o amor, clique aqui)

Eu entendo que existem muitos equívocos produzidos pela nossa sociedade. Entendo tudo isso. Mas eu não aceito “devolução de crianças”.

Ouvi em uma palestra por aí, acho que no Encontro do ano passado, que não existe DEVOLUÇÃO de crianças. Existe abandono. Podemos devolver uma roupa, um objeto. Mas filho não se devolve, se abandona. E no caso da criança que foi adotada o que existe é SER ABANDONADA DE NOVO: uma, duas, três vezes.

Uma diretora de um abrigo aqui do Rio uma vez contou uma história de um casal de pais adotivos que devolveram abandonaram a filha com a justificativa de que comia demais.

No jornal certa vez li a história de um menino que foi devolvido abandonado pelo pai depois de alguns anos de convivência porque a mãe havia falecido e ele não queria ter adotado, apenas cedeu ao desejo da esposa.

No grupo de apoio, a coordenadora falou de uma criança que foi devolvida 6 (SEIS!) vezes. E outra, uma menina, que primeiro foi abandonada pela mãe (adotiva) quando se divorciou do marido e levou com ela o filho biológico; depois o marido não aguentou e devolveu abandonou a menina e aí se arrependeu e a pegou de volta e depois… adivinhem? …devolveu abandonou de novo.

E como essas, existem muitas outras histórias que se repetem!

Me pergunto o que acontece com uma ou duas pessoas que passam por médicos, psicólogos, assistentes sociais, juízes, pelo Ministério Público, participam de grupos, assistem palestras, levantam um monte de documentos,  esperam 1, 2, 3, 4 anos… reclamam da espera, da burocracia e  depois abandonam? Onde está o erro? No sistema? Em nós?

Eu nem acho que as pessoas façam isso de maneira arbitrária, por puro capricho. Mas os adultos precisam se responsabilizar pelas escolhas que fazem. As crianças não podem pagar esse preço. Filho não salva casamento, não soluciona nossos problemas, não substitui o luto pela perda de outro filho nem sara a dor da infertilidade.

Os adultos podem se encher de desculpas e justificativas por suas ações. E não estou dizendo que não haja sofrimento, mas não, para mim não há justificativa que baste para o abandono de uma criança. Um filho que você escolheu, porque a decisão de tornar-se pai/mãe por adoção é toda nossa…. Filho biológico às vezes acontece (!), filho por adoção é uma escolha. Arquemos com as consequências.

A consequência legal para a devolução, geralmente é indenização para custear tratamento psicológico para o menor abandonada. Mas será que isso basta? Prevenir é o melhor remédio.

Bem, pessoal, mesmo dividindo em duas partes, o post ficou grande demais. rs. Vou parar por aqui. rs

Abraços!Até breve.

“Cada dia mais perto”

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Não existe devolução – Parte I

Olá, pessoal!

Eu quero falar sobre um assunto um tanto polêmico, por isso resolvi dividir o post para que o assunto não fique incompleto e nem o post longo demais.

Assim, logo de cara, pensar em “devolução” de crianças faz qualquer um sentir repulsa e revolta, especialmente nós que vivemos imersos no mundo da adoção. Meu coração gestante dói demais quando escuto essas histórias. Mas eu sempre gosto de tentar me colocar no lugar do outro, antes de apontar o dedo. Empatia é quase amor! rs

Então vamos falar sobre “devolução”?

***

Parte I – Sobre o amor

Acredito que o vínculo entre mãe/filhx e pai/filhx não se forma por mágica, assim, de um dia pro outro. E isso não é verdade apenas para a maternidade/paternidade adotiva, mas para a biológica também. Hoje em dia está na moda falar sobre Maternidade Real: as novas mamães resolveram quebrar o silêncio e romper com a maternidade idealizada.

Os grupos de apoio à adoção e as equipes técnicas das varas de infância também costumam falar sobre a realidade da maternidade/paternidade adotiva. Não é amor à primeira vista. O amor é construído no dia-a-dia, no convívio, no cuidado.

Mas aí na contramão desse pensamento, tem o já estabelecido senso comum e a mídia com seus comerciais, suas novelas e todo seu sensacionalismo contando as histórias maravilhosas sobre amor de mãe, a emoção do nascimento, o brilho da gravidez e as lindas e emocionantes histórias de adoção. Não me levem a mal. Eu A-MO ouvir as histórias dos encontros por adoção, não me canso. E também todos os dias, eu disse todos os dias da minha vida, eu penso no meu conto de fadas,rs, no meu bebê, na minha maternagem. Mas eu sei que a realidade é muito diferente.E, na real, é para isso que eu estou me preparando.

É preciso tomar muito cuidado com isso, porque é daí que nascem as frustrações. Uma mãe biológica pode se sentir frustrada caso não ame seu recém-nascido com a intensidade que ouviu falar a vida toda. Do mesmo modo, a mãe adotiva pode se frustrar se o amor não chegar no mesmo momento que seu tão esperado filho. Em ambos os casos, o dia-a-dia corrido da maternidade pode lhe fazer questionar o porquê ser tão difícil e tão diferente do que é retratado por aí. As consequências disso são graves e podem culminar na depressão. E no caso da adoção, também na “devolução“.

(continua)

“Cada dia mais perto”